Para sediar as Copas de 2010 e 2014, África do Sul e Brasil foram eleitos em um sistema rotativo entre confederações, o que possibilitou a primeira Copa no continente africano. Esse esquema foi substituído, na eleição da semana passada, por um intervalo obrigatório de oito anos, ou duas Copas, para que os países pertencentes àquela confederação possam se candidatar. Por exemplo, como o Brasil sediará a Copa em 2014 e faz parte da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol), nenhum outro país sul-americano pôde concorrer para as Copas de 2018 e 2022.
Para sediar a Copa-2018 a Rússia teve que passar por Inglaterra e os conglomerados Espanha-Portugal e Bélgica-Holanda-Luxemburgo. Já o Qatar teve que vencer Coréia do Sul, Japão, EUA e Austrália. É claro que vários fatores ajudaram, além daqueles ligados à infraestrutura dos países: a crise de 2008 atingiu de maneira mais forte EUA e Inglaterra; os analistas econômicos creêm que, depois de Grécia e Irlanda, Portugal e Espanha serão os próximos a pedirem socorro monetário para a UE e o FMI; e que Japão e Coréia do Sul foram recentemente sedes da Copa juntos, em 2002, etc.
Porém, ao colocar no mapa as últimas 4 sedes é possível ver um padrão geopolítico e econômico que aparenta ser uma ampliação de um mercado consumidor, uma espécie de colonização pela bola. Afinal, as potências emergentes foram ou serão contempladas por um evento mundial: África do Sul e Rússia (Copa do Mundo), China (Olimpíadas) e Brasil (Copa do Mundo e Olimpíadas).
A Copa da África do Sul é um exemplo dessa colonização. Com as exigências da Fifa, cidades tiveram que mudar sua estrutura de transportes, turismo, segurança, saúde, etc, o que resultou em todo um movimento civilizador e modernizador por parte do governo, uma mudança no deslocamento das populações e do consumo. E o que não era para ser visto foi escondido.
A Copa despertou identidades das mais diversas. A mídia gastou muito tempo dizendo que o país tinha saído mais unido do evento. O pan-africanismo renasceu com os países que não participaram da Copa torcendo para seus vizinhos, principalmente para o país-sede. Até o turismo em algumas regiões da África teve que ser reforçado para receber os amantes do futebol.
O futebol criou um grande mercado para si e para as marcas e produtos que o cercam, os grandes conglomerados internacionais, os ídolos, o ritual, a catarse e a consagração. Um roteiro épico, apaixonante e incerto, que vende e ajuda a vender.
Rússia e Catar viram suas economias crescerem por causa do alto preço do petróleo na última década e possuem disponibilidade para grandes investimentos e gastos. E como a África do Sul, eles fazem parte de uma fronteira de expansão não só do esporte, mas também econômica – o Leste Europeu, o Cáucaso e o Oriente Médio - e não só como investidores, mas como mercados consumidores e irradiadores regionais, vitrines de um modo de consumo e sucesso.